Fotografo: divulgação
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Entre as ideias que surgiram em meio ao caos da paralisação forçada do esporte mundial por causa da pandemia do novo coronavírus, está a de fazer o Brasileirão 2020 em formato de mata-mata, como era até 2002, para viabilizar o término dos estaduais no já normalmente apertadíssimo calendário do futebol nacional.

 

O problema é que isso tiraria dinheiro dos clubes. Um Campeonato Brasileiro com 19 rodadas na primeira fase e seis datas de jogos decisivos é até mais legal e emocionante, mas não vale o R$ 1,7 bilhão que Grupo Globo e Turner colocam na compra dos direitos de transmissão todos os anos (R$ 600 mi da Globo por TV aberta, pouco mais de R$ 500 milhões na soma de SporTV e TNT pela TV paga, mais cerca de R$ 600 milhões da emissora carioca pelo PPV).

 

O formato de pontos corridos (que eu pessoalmente acho chato) é a melhor opção financeira para viabilizar os clubes brasileiros. Sem ele, o ano será de rombo para os 20 times da Série A. Imagine se aplicado for também na Série B, onde os ganhos já são muito menores. É a garantia de 38 rodadas e times funcionando até o fim do calendário.

 

Mas meu papel aqui nesta coluna é analisar a mídia esportiva, logo, o impacto na vida dela de uma mudança de regulamento para “adequar” o calendário a essa triste crise que vivemos com milhares de casos oficiais de covid-19 no Brasil, com mais de 100 mortes confirmadas.

 

Pode-se pensar, de primeira, que o mata-mata livraria Globo e Turner de altos custos em um ano que será difícil para todo mundo na economia. Mas a realidade é que o Brasileirão foi disputado em mata-mata apenas em dois tipos de momentos televisivos: antes e depois do Clube dos 13.

 

Antes, mal havia a presença da TV como fator importante no futebol. Jogos eram vendidos de forma avulsa e não podiam ser exibidos para a praça onde eram realizados sem que todos os ingressos tivessem sido vendidos. Depois, a negociação era coletiva e a emissora acertava diretamente com a associações dos clubes.

 

O cenário agora é diferente. Desde o desmonte do C13, liderado pelo Corinthians de Andrés Sanchez com apoio da Globo em 2011, as negociações são individuais. O que há nove anos foi uma estratégia da emissora para vencer a Record e acabar com uma licitação de envelopes fechados cujo resultado era imprevisível, se tornou em 2016 uma pedra no sapato do canal carioca ao ver a Turner usar a mesma estratégia para fechar diretamente com alguns clubes pelos direitos de TV por assinatura.

 

Desde o ano passado, começaram a valer os contratos de Palmeiras, Santos, Internacional, Athletico, Bahia, Fortaleza e Ceará pelos direitos de transmissão de TV paga na Série A. Em 2020, o Coritiba, que já estava assinado anteriormente, estará de volta à primeira divisão nacional, se juntando ao grupo de times com transmissões na TNT.

 

A Globo tem os direitos de TV paga de outros 11 clubes da elite deste ano: Corinthians, Flamengo, São Paulo, Vasco, Botafogo, Fluminense, Grêmio, Atlético-MG, Goiás, Atlético-GO e Sport Recife. O outro representante da Série A, o Red Bull Bragantino, ainda não tem contrato assinado em nenhuma mídia, com nenhuma empresa.

 

Mais: Athletico (desde o ano passado), Red Bull Bragantino e Coritiba são até agora desfalques no PPV. O time alviverde do Paraná também não assinou com a Globo por TV aberta ainda. Um acordo seria muito mais complicado nas atuais bases, com calendário incerto e apertado.

 

O PPV perderia muitos jogos no mata-mata. Sem os direitos desses três clubes, já poderia exibir apenas 272 partidas nos pontos corridos. Em caso de turno único na primeira fase, esse número cai para 136 dos 190 possíveis. No mata-mata, raros seriam as partidas possíveis com exclusividade que justificasse a venda do Premiere, já que Globo, SporTV e TNT certamente iriam avançar sobre os duelos decisivos. Ou quase isso.

 

É nesse ponto que chegamos, a TV paga. Faço o seguinte exercício de imaginação, e o amigo leitor que torce por outros clubes não usados na simulação pode se sentir ofendido, mas é, como eu disse, apenas uma imaginação.

 

Pense em um mata-mata com os seguintes jogos: Flamengo x Santos, Palmeiras x Atlético-MG, Grêmio x Internacional, São Paulo x Athletico. Não seria tão irreal. Coloquei aqui oito times fortes ou que podem crescer em 2020, como o Galo com Sampaoli. Mas pode o time mineiro substituir pelo Corinthians, por exemplo. Não afetaria o que quero dizer:

 

– NENHUM DESSES JOGOS PODERIA SER TRANSMITIDO PELA TV PAGA.

 

Isso mesmo. Flamengo é um time do SporTV, Santos é da TNT. O Palmeiras é da TNT, o Atlético-MG é do SporTV. O Grêmio é do SporTV, o Internacional é da TNT. O São Paulo é do SporTV, o Athletico é da TNT.

 

A TV por assinatura ficaria simplesmente fora das quartas de final do Brasileirão. Imagine, então, se as semifinais fossem formadas por dois jogos assim, SporTV x TNT. Poderia acontecer até com a final. E a TV paga amargaria apenas transmissões da pouco válida fase inicial, ou teria que “engolir seco” um acordo entre os dois canais, antes inimaginável, para que houvesse a exibição conjunta dessas partidas.

 

No exemplo que eu montei, o PPV não poderia transmitir ainda o duelo São Paulo x Athletico, pela falta de acordo com o Furacão. Quanto mais o time paranaense avançasse, menos jogos teria o Premiere. A Globo poderia mostrar tudo, mas apenas em TV aberta, sem garantir grandes ganhos com o pay-per-view.

 

Não faz sentido provocar esse caos em nome da finalização dos estaduais. Os times do interior já estão sendo desmontados em São Paulo. O cenário certamente será pior nas outras regiões. O momento é de garantir ajuda financeira aos times menores para que possam fechar suas contas e pensar na temporada 2021.

 

Infelizmente, teremos que achar opções como declarar um campeão estadual na “canetada”, ou aplicar um “no contest”, como chamamos as lutas que ficam sem vencedores no UFC. O Brasileirão não pode ser sacrificado. E quem está falando é um eterno saudosista do mata-mata, mas só como torcedor.

 

Allan Simon